Eagle-Eye Cherry

Eagle-Eye Cherry

Murilo Oliveira

Brasil, 25 de abril de 2022.

Existe uma velha lenda sobre Águia americana muito contada em toda parte, que ao que parece não chega a ser verídica mas é muito interessante. De pronto encontrei no Google o relato de Sandro dos Santos dessa mesma lenda, que quero reproduzir de forma breve.

“A fábula da águia (que contém exageros!) serve de partida para uma reflexão sobre o ciclo da vida. Embora a águia verdadeira não possa ficar sem se alimentar, não troque o seu bico ou as penas de uma só vez e viva em torno de 35 anos, a da história diz que a águia vive 70 anos; lá pelos seus 40 as unhas já não prendem a presa da qual se alimenta e o seu bico se curva perigosamente contra o próprio peito; as asas envelhecidas e pesadas com grossas penas já não facilitam o ato de voar.

É, então, a hora da tomada de uma decisão fundamental: entregar-se à morte ou enfrentar o doloroso processo de renovação. Ela deve voar a uma alta montanha, refugiando-se num ninho próximo à parede; bicará a parede até cair o bico e esperará o nascimento do novo, quando arrancará as unhas velhas; depois, de unhas novas, desprenderá de suas penas arrancando-as com o bico. Passado tal processo, a águia real americana executará o seu voo de renovação e terá mais longos 30 anos de vida.”

Chamo atenção para tal lenda, pois em algum sentido ela me diz muito sobre minha chegada aos 40 anos. Sobre bater o bico aqui nesse parede até arrancá-lo, sobre uma série de processos dolorosos que enfrentamos na meia idade.

Eu tenho no período recente refletido muito uma fase especial da infância no Rio de Janeiro, passei muitos anos afastado do Rio de Janeiro, e retorno no meio da pandemia por alguma contingência pessoal ainda não tão clara para mim naquela altura dos fatos, mas me pego em certa manhã de frente para o mar naquela cidade pensando sobre a Fênix.

Nesse processo que se avizinha aos meus 40 anos, a dita idade em que Águia passa a se renovar, ainda um pouco com as referências voltadas para Fênix, como eu descrevo, há pouco mais de um ano acordo de frente para o mar no Rio de Janeiro, e paradoxal que possa ser a presença de tal hábito em minha vida, olhando para o mar ali logo a frente, juntando as cinzas dos meus cigarros, penso na Fênix e a forma que ela coloca seu ovo quando percebe seu ocaso e seu renascimento se aproximar. Era o que de sólido pressentimento me ocorria naquele instante sobre a fase da vida que atingira até ali.

De alguma forma eu vi ali, não livre de suas dores como tudo apontava, um “turning point” muito claro na vida. Já no passado. O sentido que quero resgatar aqui é de uma mão invisível que não é do mercado, mas até poderia ser, que cuida até certo momento da história, da minha história, é o que eu posso extrair. E isso vem a cessar, envelhecer, e morrer, como tudo na vida um dia cessa, envelhece, e morre. Aparentemente um pacote de viagem, vamos dizer assim, um controverso mas sensível pacote de viagem que embala quase 40 anos dessa velha Águia. Talvez um pouco menos, aos 24 anos a história me levou para algum lugar mais incerto e mais distante desse pacote de viagem carioca. E nisso pressentia estar naquela manhã solitário, embora não sozinho, a contemplar aquele mar e pensar no renascimento.

@CoexistenceLaw

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Murilo

Murilo Oliveira is a Brazilian lawyer, the themes proposed here are of variety, without political or religious purposes, as for all those who hold the angelic culture in great esteem.

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