Murilo Jambeiro de Oliveira
Brasil, 23 de maio de 2025.

Sebastião Salgado – Brazil, 1983
As vezes é muito difícil encontrar amigos ricos em conhecimento e sensibilidade, capaz de nos dar a mão em enrascadas. Um, contaria brevemente de um dia, que um pouco perdido, pego um ônibus, o primeiro que passou até uma rodoviária, e então pego outro, até aproximadamente onde é uma das casas de Sebastião Salgado, onde em sua inauguração, fui convidado a plantar uma árvore em frente a biblioteca. Uma Oliveira vinda de presente da Palestina. Haviam muitos convidados, era uma dia de festa, Sebastião não estava ali, mas havia contribuído com sua construção junto de Chico Buarque e José Saramago. Era tarde da noite, e era difícil para mim achar a entrada aquela hora da noite, sem avisar. Um pouco de desterro, necessidade de encontrar irmãos de fé. Mas já havia saltado do ônibus alguns quilometro antes, e não encontrava a entrada correta a pé. Quase sempre de chinelos de dedo como costumo, como prefiro quando não tenho grandes obrigações ou melhor, quando estou fazendo as coisas por prazer.
Na inauguração havia tirado lindas fotos, que mandei revelar na Fnac de Pinheiros, talvez involuntariamente assim as tivesse remetido a França, motivo pelo qual me encontrava naquela enrascada. E a noite passava, e eu não achava essa que é uma dileta casa de Sebastião Salgado. Então, opto por pegar carona em caminhão, que também tão pouco sabia onde morava tão distinta gente. Apenas pode me ajudar a chegar a outro terminal rodoviário, uma praça muito próxima, ainda no meio da madrugada, onde poderia me informar melhor, me localizar um pouco ali nas redondezas até o amanhecer. Sentei um banco de praça a espera do primeiro ônibus, que cai no sono a espera daquele primeiro ônibus que talvez me levasse ao meu destino final. Ao amanhecer, me dou conta que sobre o banco de praça que adormeci brevemente naquela madrugada muito exausto, havia uma placa: Rua Gaspar.
Acabei naquela manhã resolvendo voltar para residencia de meus pais, não havia avisado que os visitaria, havia preocupação em casa com aquela saída sem maiores satisfações, e eu retornaria até esse destino outras vezes no natal, já sendo aguardado por amigos ternos, certamente como as coisas, ou os amigos Salgados que eles detém sempre. Ao que pude constatar, a Oliveira Palestina que plantei já não estava mais as portas da biblioteca, que parece de certo modo como inteirar a mais da doação de Chico Buarque, Josè Saramago, e Sebastião Salgado, para aquele lugar. Um departamento de informática. As vezes passar o natal com os mesmos é um pouco do sentido do que me faz sentir em casa, mais cristão, mais chique.
E ao longo da vida, a obra de Sebastião Salgado teve um pouco esse sentido para mim. Algo como fazer parte de uma irmandade que escolhemos, algo como perguntar, você ainda está aí na linha? E ouvir como resposta, estou e a custos estratosféricos, seja breve se lhe for possível. E em geral é essa a questão, a que horas temos saída aqui, porque a gente quer apenas comida, a gente quer comida, diversão e arte, saída para qualquer parte, como diriam os Titãs.
Sebastião será sempre para uma lembrança dessa escolha que por exemplo em meio a divisões do estudantado, havia aquela chamada de “pé sujos”. Não era como não sempre uma escolha fácil, como num dia de festa concluo que preciso de sapatos novos, um chorinho de nossas questões, como André Sapato Novo. Mas isso porque é de amizade e afinidades que são feitas nossas escolhas, e precisamos, nesse dias de festa, representa-las como se pede, para que tenhamos condições de representar-nos. De ter nossos momentos de amizade, nosso crédito em meio a ao difícil sacerdócio de nossas próprias profissões, que para advogados são as tais Agruras descritas por Tales Castelo Branco. Para achar sentido em conviver com elas em um limite de algumas enrascadas cotidianas, onde nem sempre podemos fazer muito, mas ter um peito o orgulho e a alegria de “Algumas Coisas Salgadas”, como esse e os meus próprios “pés sujos”.
@CoexistenceLaw
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