Eu Me Elucidei

Eu Me Elucidei

Murilo Jambeiro de Oliveira

Brasil, 21 de maio de 2025.

Ao longo da vida, minha grande inspiração foi o Jornalismo. Eu me lembro que em princípio, no ginasial, obtinha grandes notas tanto na disciplina de matemática como de redação em português. Custou um pouco para ser alguém afeito as regras gramaticais do português, mas já fazia boas redações, e isso foi sendo posto a prova de um momento em diante, que estudando em um colégio jesuíta na Avenida Paulista, gostava de cabular aula e comprar jornais nas bancas da Avenida Paulista. E logo surge o habito dos semanários de notícia impressos. Em alguma medida era recomendável para o vestibular ler jornais impressos, especialmente seus editoriais e opinativos, para desenvolver o habito da redação. E digo em alguma medida, porque logo passei a ler os jornais impressos inteiros além dos semanários impressos de notícia inteiros, ainda no segundo grau.

E digo isso porque esse habito existe até hoje, mas se tornou um pouco inóspito o habito em relação a acompanhar Brasília. Eu sempre ouvi um comentário de que Brasília construída pelo presidente Juscelino Kubitschek tirando a Capital Federal do Rio de Janeiro, levou os assuntos nacionais a se distanciarem do país. Acredito ser uma verdade, mas mais que isso, acompanhar a vida legislativa do país é em parte um ofício difícil na medida que consiste no acompanhamento detido da negociação de muitos interesses, nem sempre claros, nem sempre céleres, há de fato um cansaço quanto a isso. Até para uma pessoa que acompanha a vida nacional nos jornais impressos, televisivos, e virtuais, muito e desde sempre.

Por outro lado, e em geral sem poder escolher, em todos os meios os temas são quase sempre apresentados como um todo, como são, temas interligados, sou mais afeito aos jornais econômicos e internacionais. O que não deixa de ter relação com o todo do noticiário, inclusive ou especialmente de Brasília, mas é minha prova que o Jornalismo assim com letra maiúscula é muito amplo. Dizia recentemente entre amigos no Facebook, leio muito pouca fofoca, e talvez menos ainda esportes. Não é falta de apreço por tais assuntos, apenas estava refletindo que assuntos que gosto mais, como por exemplo troco um pouco ler fofocas do Big Brother Brasil pela leitura das fofocas da Cortes Reais de todo o mundo, e até a unanimidade nacional que é futebol, pelo judô ou o hipismo, as duas coisas são um pouco reflexas de si próprio, eu gosto tanto mais de tratar de questões sociológicas da perspectiva familiar, como tenho uma preferencia absoluta por Jogos Olímpicos do que por Copa do Mundo de Futebol, até sua simbologia, o que é ser um pouco um público minoritário no Brasil em relação ao interesse jornalistico. E a isso recebo críticas até, no Brasil a Monarquia já não rende tanta notícia, quando busco ídolos no esporte, mesmo sem praticá-los, pareço talvez na condição de escritor que venho a ser cada dia mais, uma espécie de metáfora das mesmas coisas, na mesma medida que as utilizo para minha escrita.

Esse é o dado curioso, formar um leitor, mesmo que de textos curtos jornalísticos nos bancos escolares, tem por intenção primeira, formar indivíduos escritores, ainda que de textos curtos. E é o que veio me ocorrendo no idioma português ao longo do tempo, um escritor até que capaz de textos curtos. E aqui entra a questão chave, que me custou muito ao longo da vida até esse tanto. Me custou por exemplo estudar longamente o processo de alfabetização de crianças e adultos de departamento de educação de uma das universidades que fiz como ouvinte muito interessado, tendo superado o estudo de diversos autores de pedagogia, nacionais e estrangeiros, até me dar conta que dificuldades marcantes dos meus primeiros dias de alfabetização são conhecidas por uma denominação precisa, que regride ao longo da vida como eu posso constatar, embora nunca desapareça, que é a dislexia. Mesmo minha mãe até meu nascimento tendo lecionado alfabetização de crianças, e me sendo providencial nesse intento, tenho certeza mesmo para ela eram como são até hoje curiosas quando chamadas assim: dislexia. Algo de que padeceu Leonardo Da Vinci e Albert Einstein, e de fato padeceram, Da Vinci passa anos incompreendido em uma masmorra, bem como Einstein é tido por idiota boa parte da vida em um escritório de patentes na Suíça. Eu diria, era engraçado por exemplo para mamãe que eu escrevesse tudo espelhado, de trás para diante, no processo de alfabetização na infância, a ponto de eu ter lembrança nítida disso, mas não era uma condição especial. Condição essa que é sabido regride ao longo da vida, esse é o dado feliz, vou me tornar esse leitor e escritor que vos fala, ainda que nunca deixe de ser disléxico. O quer dizer, que em um dia de muito cansaço num escritório de direito, aquilo que me dou conta que sempre me foi difícil que é fazer cópias do quadro negro, aparece no que muito cansado ao copiar da capa de processos grandes sequencias numéricas para uma tabela no computador, aparece como espelhamento involuntário, quando me dou conta copiei todos eles de trás para diante na tabela.

Quer dizer, deixar de ser disléxico você não deixa, mas a melhora é impressionante ao longo da vida, a ponto de eu conseguir enfrentar a leitura se um enorme número de autores de pedagogia e refletir sobre eles na minha vida, Piaget, Montessori, Vygotsky, Paulo Freire, ou Waldorf. E nisso, eu vou encontrar dislexia no meu próprio processo de alfabetização, bem como em certo sentido eu posso dizer que eu me soluciono. Esse é o termo, eu me soluciono. Se por exemplo, em plena leitura de Paulo Freire eu vou me dar conta por exemplo da existência de diversos tipos de analfabetismo enquanto tentava alfabetizar adultos, um dado chave que só esse autor e o esforço pessoal de alfabetizar adultos vai me propiciar enquanto auto elucidação, a existência de diversos tipos de analfabetismo, por outro lado Jean Piaget, vai me dar o começo da minha escrita ficcional, qual eu de fato, e agora sim, me soluciono. Qual seja o dado, Piaget quando define faixas etárias com determinadas características, vai falar de uma determinada fase minha vida, comum na sua pedagogia, chamada de “pensamento mágico”. Digamos que “se solucionar” passar por compreender a tal fase de Piaget tanto quanto a própria biografia e condições ambientais da mesma época, isso “me soluciona” para mim próprio.

E desse ponto em diante, do momento que “eu me solucionei” em diante, o amor ao jornalismo não passa, mas começou sempre a ensaiar a escrita de mais longo curso. Romancear histórias. Coisa que não fazia antes, mas depois de enfrentar tais textos mais longos e difíceis, além do esforço de clarear toda a minha biografia durante o período de alfabetização e os demais, me inspira a escrever sobre isso em forma de romance. Ou seja, um momento ímpar da regressão da dislexia, bem como uma vitória da auto-ajuda em sentido literal, que muitas vezes eu prefiro contar em sentido figurado. Como por exemplo, falar de um período de Piaget do “pensamento mágico” conflituoso em minha biografia, certamente do casamento de meus pais, que minha mãe procurou mais ao longo da vida dizer sobre si e esse fato, do que sobre mim mesmo, dizendo que as coisas tem ciclos como o casamento e não exatamente eu próprio, eu comecei a tratar por uma ficção conhecida milenarmente que é a dos “Reis Magos” uma vez que mamãe faz aniversário no dia 6 de janeiro, dia dos Reis Magos, e isso me cria uma perspectiva ficcional biográfica do que Piaget chama de “pensamento mágico” e ruptura qualquer nesse período, quando o dia 6 de janeiro sempre foi a segunda maior festa da família, aniversário de mamãe, depois apenas do natal. Mais que isso, vou até explorar ficções bíblicas, porque como Da Vinci e Einstein em um período de reclusão e grande incompreensão, a leitura muito comum é a bíblia, e embora os Reis Magos não estejam lá, estão por exemplo os Cavaleiros do Apocalipse. Embora por exemplo algum tipo de leitor mais jocoso tente impingir a uma ficção auto-biográfica tão ampla, o judô e o hipismo na mesma chave de Cavalos do Apocalipse, o que não tem nada a ver, mas é um tipo de leitor o qual eu não me livro já a essa altura da vida. O que nos meus muitos sofrimentos eu vou chamar de “leitor hiena”, qual seja, aquele que das minhas muitas leituras dinâmicas de trás para diante, extrai algum dado com que ele quer rolar de rir, e fazer atribuições impróprias. Meu amigo Salman Rushdie sabe que não é tão simples como dizer quem não gosta não leia, tem gente que não gosta e lê para criticar, e até mesmo para rolar de rir, te causando grande sofrimento.

Mas de sobremodo, o que queria dizer a essa altura dos fatos é: “Eu me elucidei”. Se ainda me exijo folego para transformar tudo em ficção capaz de entreter e ajudar o próximo, talvez aqui nesse Blog seja outro assunto, ou outra ocasião. mas eu me elucidei. Tanto pelo esforço de ler, o editorial do jornal do dia que o fosse, desde muito cedo, me obrigando a tanto por conta própria desde muito cedo, até ler o jornal todo, quanto indo até autores que me fossem intimamente úteis, independente da minha formação em Direito. E não tenho tantas pretensões hoje, que distem do ofício jurídico, ou jornalistico, ou mesmo de autor de ficção, que tenha uma enorme alegria e prazer no domínio das letras. Pois foi através delas e do esforço quanto as mesmas que eu vi minha dislexia regredir do três para o zero, bem como encontrar a precisa fratura biográfica que se fez a cola para ser um autor saudável e agradável a todos no deleite de dados e detalhes, análises e metáforas.

@CoexistenceLaw

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Murilo

Murilo Oliveira is a Brazilian lawyer, the themes proposed here are of variety, without political or religious purposes, as for all those who hold the angelic culture in great esteem. Visit: https://www.flickr.com/photos/198793615@N08

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