Murilo Oliveira
Brasil, 10 de agosto de 2023.
Crítica historiográfica a Caio Prado Júnior – Wikipedia
“Sua produção teórica é mais marxiana do que marxista-leninista. […] Lida com fatos em termos de relações, processos e estruturas, localiza e explica desigualdades, diversidades, contradições sociais”.[9]
Fábio Hanna caracteriza Caio Prado, citando Octavio Ianni, dentro da geração moderna, e o caracteriza como sendo um intelectual do pensamento social brasileiro, marcado por uma preocupação política nacionalista e de modernização do país; e segue sua argumentação falando que este está inserido dentro de uma cultura na escrita da história que vem desde a independência, com o intuito de dar início à formação do estado nacional brasileiro e sentido e condução para a política e cultura do Estado. Já José Carlos Reis analisa, em especial, a obra Revolução Brasileira, por sintetizar a realidade brasileira e sua mudança revolucionária, marcando profundamente o pensamento revolucionário brasileiro.
Para Fábio Hanna as obras de Caio Prado Jr. estão inseridas na perspectiva de atividade política advinda dos anos 20, como meio de relacionar com os processos de transformação que estavam em pauta na sociedade brasileira. Assim o nacionalismo defendido por Caio Prado Jr. se identifica com um nacionalismo econômico. Trabalhando a questão de um país atrasado por causa da submissão de exportadores de produtos ao mercado internacional, privilegia a briga política com os países imperialistas ao qual exercem seu domínio subvertendo, dessa maneira a ordem vigente. Analisando as obras Evolução política do Brasil (1933) e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), este percebe que são textos escritos em uma dinâmica da realidade com projeções para o futuro discutido através de uma perspectiva histórica, que produzem novos desafios para o projeto modernizador da sociedade brasileira e que estão sendo escritos no calor dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos de suas épocas.
Malha ferroviária do Brasil em 1910. Seu desenho pode ser entendido como uma evidência de que o Brasil tinha sua economia voltada para o mercado externo. Nota-se que as ferrovias não integram o território do país, mas apenas ligam o interior aos portos. Além disso, essa disposição das ferrovias pode prejudicar o desenvolvimento do mercado interno.[10]
Caracterizando a colônia como o sentido fundamental da estrutura e colonização que de forma inevitável perpassava pela formação do nacionalismo, Caio Prado tenta mostrar que a solução para o Brasil estava no mercado interno; pois se na época da colônia o mercado era voltado para o mercado externo, a iniciativa nacional deveria opor-se a esta e desenvolver a criação de um mercado que atendesse internamente o país. Assim aceitando a tese do sentido da colonização onde o Brasil é dependente por ser exportador estamos aceitando a contraproposta de que para tornar um país independente tanto politicamente quanto economicamente está atrelado à constituição do mercado interno. Seu projeto está escrito na categoria básica de sentido da colonização; assim “[…] inaugura uma nova etapa na historiografia brasileira. Muitas são as razões: pela primeira vez o materialismo histórico é utilizado eficazmente como método de interpretação da história brasileira, as classes sociais passam a ser uma categoria analítica e as revoluções saem das notas de rodapé e passam a figurar no corpo do texto entre outras”.[11] É este novo tipo de interpretação histórica que para Hanna reflete nas opções políticas que influenciaram o autor ao longo de sua trajetória política.
José Carlos Reis dará melhor ênfase na análise do “sentido da colonização”. Ao falar da obra A Revolução Brasileira, dissertará que a obra se insere no redescobrimento do Brasil e que usa do materialismo histórico de forma inovadora, pois até os anos 30 a intelectualidade via o Brasil com desconfiança por causa de seu gênero racial mestiço, e as classes sociais mais baixas que não “passavam confiança” para o futuro do Brasil, sendo Caio Prado Jr. o primeiro a dar essa oportunidade histórica a esses grupos. Sendo assim argumenta que as elites não construíram a história do Brasil sozinhas, as classes sociais também são agentes históricos e cita: “Redescobrir o Brasil significa ver nessa sua face oculta, neste seu outro lado, o verdadeiro Brasil. Este outro lado deverá ser integrado, valorizado e recuperado, pois nele estão os construtores da sociedade brasileira presente/futura”.[9] Dessa forma seu sentido estrutural será as relações sociais e o modo de produção capitalista, fugindo de uma perspectiva tradicional, onde influenciará uma corrente de interpretação marxista do Brasil mais crítica. Assim ele inaugurou uma corrente de interpretações marxista no Brasil descentrada do PCB, com o intuito de pensar a sociedade brasileira com relações do passado e presente e com expectativas de discussão para o futuro.
Assim José Carlos Reis argumenta que, segundo Caio Prado, as análises marxistas que interpretavam o Brasil eram reinterpretadas e readaptadas para o caso brasileiro com o objetivo de ajustar a realidade brasileira. Para se contrapor a este pensamento seus escritos enfatizam a “criação” do Brasil em quadros do capitalismo moderno atrelado ao continente e atividades europeias a partir do século XV, o que ia à contramão do pensamento marxista proposto para a época que segundo eles o Brasil possuía resquícios feudais. Nesse sentido ele defende que o Brasil foi um fornecedor de produtos tropicais e que fazia parte de um sentido amplo da história. “Todos os acontecimentos dessa era dos descobrimentos articulam-se num conjunto que só é um capítulo da história do comércio europeu. A colonização do Brasil é um capítulo dessa história”.[9]
Seguindo o raciocínio, Caio Prado Júnior faz alusão de que não se pode interpretar a realidade brasileira e nem seu futuro a partir de situações que não se comparam com a nossa. A partir dessa forma otimizada com que o autor trabalhará a interpretação brasileira é que ele tratará do sentido da história brasileira que de forma dialeticamente e com transição dinâmica leva de um passado para um futuro. Segundo sua teoria, se o Brasil tivesse um caráter feudal, a luta social seria dada a partir da reivindicação da propriedade da terra, o que para ele era um erro teórico, histórico e político, pois os operários do campo reivindicavam as leis trabalhistas. Reis, de maneira geral resume a dialética do sentido da colonização: “Abordada assim, a realidade brasileira atual revelaria uma transição de um passado colonial a um futuro, já próximo, de uma nação estruturada, com uma organização econômica voltada para o interior, moderna. […] Eis o sentido da história brasileira, que uma teoria especialmente elaborada para abordá-la em sua especificidade revela: da heterogeneidade inicial, da dispersão original, a uma homogeneidade nacional estruturada. Economicamente o mercado interno deverá superar o externo, o que estimulará a diversificação da produção. Este é o caminho da sociedade brasileira: da sociedade colonial ao Brasil-nação. Realizar esta transição radical é realizar a verdadeira revolução brasileira, que aliás já está em marcha há muito tempo”.[9]
Contudo as obras revelam o caráter economicista em sua estrutura onde a prioridade da infraestrutura é utilizada como instância determinante para sua análise. Todas as suas grandes obras são de síntese e de certa forma dizem respeito sobre o sentido da história brasileira contendo características de origem e identidade do brasileiro. Hanna, ainda conclui que são textos políticos pois são escritos para surtir um efeito para o presente. “[…] na análise político social brasileira, o objetivo é o mesmo [entre ele e Oliveira Vianna]: modernizar o Brasil torná-lo uma nação de fato”.[11]
Apesar de sua visão majoritariamente privilegiada e considerável aprovação, sua obra serviu de palco para inúmeras críticas. Dentre eles, Carlos Nelson Coutinho, diz que essa visão de capitalismo desde o início do Brasil era atrasada. Os membros do PCB criticaram também essa ideia. Coutinho, diante desse impasse no partido, diz que o Caio Prado Jr. era atrasado, e não o partido que ele criticava. Também Sodré, usa de ironia para dizer que não fazia sentido a ideia de capitalismo no surgimento do Brasil, sendo que o capitalismo surgiu no século XVIII na Inglaterra.[12]
Prado Jr. também recebeu críticas por seu economicismo na obra Formação do Brasil contemporâneo. Ele reduziu os aspectos sociais do Brasil para uma dimensão econômica. Seus críticos dizem que, na obra, a economia era a responsável por delimitar os acontecimentos na sociedade. Porém, segundo os seus críticos, isso era um reducionismo. Além desse economicismo, o autor era criticado por não usar fontes primárias.[12]
@CoexistenceLaw
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