{"id":805,"date":"2023-08-10T10:57:21","date_gmt":"2023-08-10T13:57:21","guid":{"rendered":"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=805"},"modified":"2023-08-10T10:57:39","modified_gmt":"2023-08-10T13:57:39","slug":"rip-caio-prado-junior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=805","title":{"rendered":"RIP Caio Prado J\u00fanior"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Murilo Oliveira<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Brasil, 10 de agosto de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Cr\u00edtica historiogr\u00e1fica a Caio Prado J\u00fanior &#8211; Wikipedia<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 mais marxiana do que marxista-leninista. [\u2026] Lida com fatos em termos de rela\u00e7\u00f5es, processos e estruturas, localiza e explica desigualdades, diversidades, contradi\u00e7\u00f5es sociais&#8221;.[9]<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e1bio Hanna caracteriza Caio Prado, citando Octavio Ianni, dentro da gera\u00e7\u00e3o moderna, e o caracteriza como sendo um intelectual do pensamento social brasileiro, marcado por uma preocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacionalista e de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds; e segue sua argumenta\u00e7\u00e3o falando que este est\u00e1 inserido dentro de uma cultura na escrita da hist\u00f3ria que vem desde a independ\u00eancia, com o intuito de dar in\u00edcio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do estado nacional brasileiro e sentido e condu\u00e7\u00e3o para a pol\u00edtica e cultura do Estado. J\u00e1 Jos\u00e9 Carlos Reis analisa, em especial, a obra Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, por sintetizar a realidade brasileira e sua mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria, marcando profundamente o pensamento revolucion\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para F\u00e1bio Hanna as obras de Caio Prado Jr. est\u00e3o inseridas na perspectiva de atividade pol\u00edtica advinda dos anos 20, como meio de relacionar com os processos de transforma\u00e7\u00e3o que estavam em pauta na sociedade brasileira. Assim o nacionalismo defendido por Caio Prado Jr. se identifica com um nacionalismo econ\u00f4mico. Trabalhando a quest\u00e3o de um pa\u00eds atrasado por causa da submiss\u00e3o de exportadores de produtos ao mercado internacional, privilegia a briga pol\u00edtica com os pa\u00edses imperialistas ao qual exercem seu dom\u00ednio subvertendo, dessa maneira a ordem vigente. Analisando as obras Evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil (1933) e Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo (1942), este percebe que s\u00e3o textos escritos em uma din\u00e2mica da realidade com proje\u00e7\u00f5es para o futuro discutido atrav\u00e9s de uma perspectiva hist\u00f3rica, que produzem novos desafios para o projeto modernizador da sociedade brasileira e que est\u00e3o sendo escritos no calor dos acontecimentos sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos de suas \u00e9pocas.<\/p>\n\n\n\n<p>Malha ferrovi\u00e1ria do Brasil em 1910. Seu desenho pode ser entendido como uma evid\u00eancia de que o Brasil tinha sua economia voltada para o mercado externo. Nota-se que as ferrovias n\u00e3o integram o territ\u00f3rio do pa\u00eds, mas apenas ligam o interior aos portos. Al\u00e9m disso, essa disposi\u00e7\u00e3o das ferrovias pode prejudicar o desenvolvimento do mercado interno.[10]<br>Caracterizando a col\u00f4nia como o sentido fundamental da estrutura e coloniza\u00e7\u00e3o que de forma inevit\u00e1vel perpassava pela forma\u00e7\u00e3o do nacionalismo, Caio Prado tenta mostrar que a solu\u00e7\u00e3o para o Brasil estava no mercado interno; pois se na \u00e9poca da col\u00f4nia o mercado era voltado para o mercado externo, a iniciativa nacional deveria opor-se a esta e desenvolver a cria\u00e7\u00e3o de um mercado que atendesse internamente o pa\u00eds. Assim aceitando a tese do sentido da coloniza\u00e7\u00e3o onde o Brasil \u00e9 dependente por ser exportador estamos aceitando a contraproposta de que para tornar um pa\u00eds independente tanto politicamente quanto economicamente est\u00e1 atrelado \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do mercado interno. Seu projeto est\u00e1 escrito na categoria b\u00e1sica de sentido da coloniza\u00e7\u00e3o; assim &#8220;[\u2026] inaugura uma nova etapa na historiografia brasileira. Muitas s\u00e3o as raz\u00f5es: pela primeira vez o materialismo hist\u00f3rico \u00e9 utilizado eficazmente como m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira, as classes sociais passam a ser uma categoria anal\u00edtica e as revolu\u00e7\u00f5es saem das notas de rodap\u00e9 e passam a figurar no corpo do texto entre outras&#8221;.[11] \u00c9 este novo tipo de interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que para Hanna reflete nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que influenciaram o autor ao longo de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Carlos Reis dar\u00e1 melhor \u00eanfase na an\u00e1lise do &#8220;sentido da coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;. Ao falar da obra A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, dissertar\u00e1 que a obra se insere no redescobrimento do Brasil e que usa do materialismo hist\u00f3rico de forma inovadora, pois at\u00e9 os anos 30 a intelectualidade via o Brasil com desconfian\u00e7a por causa de seu g\u00eanero racial mesti\u00e7o, e as classes sociais mais baixas que n\u00e3o &#8220;passavam confian\u00e7a&#8221; para o futuro do Brasil, sendo Caio Prado Jr. o primeiro a dar essa oportunidade hist\u00f3rica a esses grupos. Sendo assim argumenta que as elites n\u00e3o constru\u00edram a hist\u00f3ria do Brasil sozinhas, as classes sociais tamb\u00e9m s\u00e3o agentes hist\u00f3ricos e cita: &#8220;Redescobrir o Brasil significa ver nessa sua face oculta, neste seu outro lado, o verdadeiro Brasil. Este outro lado dever\u00e1 ser integrado, valorizado e recuperado, pois nele est\u00e3o os construtores da sociedade brasileira presente\/futura&#8221;.[9] Dessa forma seu sentido estrutural ser\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es sociais e o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, fugindo de uma perspectiva tradicional, onde influenciar\u00e1 uma corrente de interpreta\u00e7\u00e3o marxista do Brasil mais cr\u00edtica. Assim ele inaugurou uma corrente de interpreta\u00e7\u00f5es marxista no Brasil descentrada do PCB, com o intuito de pensar a sociedade brasileira com rela\u00e7\u00f5es do passado e presente e com expectativas de discuss\u00e3o para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim Jos\u00e9 Carlos Reis argumenta que, segundo Caio Prado, as an\u00e1lises marxistas que interpretavam o Brasil eram reinterpretadas e readaptadas para o caso brasileiro com o objetivo de ajustar a realidade brasileira. Para se contrapor a este pensamento seus escritos enfatizam a &#8220;cria\u00e7\u00e3o&#8221; do Brasil em quadros do capitalismo moderno atrelado ao continente e atividades europeias a partir do s\u00e9culo XV, o que ia \u00e0 contram\u00e3o do pensamento marxista proposto para a \u00e9poca que segundo eles o Brasil possu\u00eda resqu\u00edcios feudais. Nesse sentido ele defende que o Brasil foi um fornecedor de produtos tropicais e que fazia parte de um sentido amplo da hist\u00f3ria. &#8220;Todos os acontecimentos dessa era dos descobrimentos articulam-se num conjunto que s\u00f3 \u00e9 um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria do com\u00e9rcio europeu. A coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e9 um cap\u00edtulo dessa hist\u00f3ria&#8221;.[9]<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo o racioc\u00ednio, Caio Prado J\u00fanior faz alus\u00e3o de que n\u00e3o se pode interpretar a realidade brasileira e nem seu futuro a partir de situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se comparam com a nossa. A partir dessa forma otimizada com que o autor trabalhar\u00e1 a interpreta\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 que ele tratar\u00e1 do sentido da hist\u00f3ria brasileira que de forma dialeticamente e com transi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica leva de um passado para um futuro. Segundo sua teoria, se o Brasil tivesse um car\u00e1ter feudal, a luta social seria dada a partir da reivindica\u00e7\u00e3o da propriedade da terra, o que para ele era um erro te\u00f3rico, hist\u00f3rico e pol\u00edtico, pois os oper\u00e1rios do campo reivindicavam as leis trabalhistas. Reis, de maneira geral resume a dial\u00e9tica do sentido da coloniza\u00e7\u00e3o: &#8220;Abordada assim, a realidade brasileira atual revelaria uma transi\u00e7\u00e3o de um passado colonial a um futuro, j\u00e1 pr\u00f3ximo, de uma na\u00e7\u00e3o estruturada, com uma organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica voltada para o interior, moderna. [\u2026] Eis o sentido da hist\u00f3ria brasileira, que uma teoria especialmente elaborada para abord\u00e1-la em sua especificidade revela: da heterogeneidade inicial, da dispers\u00e3o original, a uma homogeneidade nacional estruturada. Economicamente o mercado interno dever\u00e1 superar o externo, o que estimular\u00e1 a diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o caminho da sociedade brasileira: da sociedade colonial ao Brasil-na\u00e7\u00e3o. Realizar esta transi\u00e7\u00e3o radical \u00e9 realizar a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o brasileira, que ali\u00e1s j\u00e1 est\u00e1 em marcha h\u00e1 muito tempo&#8221;.[9]<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo as obras revelam o car\u00e1ter economicista em sua estrutura onde a prioridade da infraestrutura \u00e9 utilizada como inst\u00e2ncia determinante para sua an\u00e1lise. Todas as suas grandes obras s\u00e3o de s\u00edntese e de certa forma dizem respeito sobre o sentido da hist\u00f3ria brasileira contendo caracter\u00edsticas de origem e identidade do brasileiro. Hanna, ainda conclui que s\u00e3o textos pol\u00edticos pois s\u00e3o escritos para surtir um efeito para o presente. &#8220;[\u2026] na an\u00e1lise pol\u00edtico social brasileira, o objetivo \u00e9 o mesmo [entre ele e Oliveira Vianna]: modernizar o Brasil torn\u00e1-lo uma na\u00e7\u00e3o de fato&#8221;.[11]<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de sua vis\u00e3o majoritariamente privilegiada e consider\u00e1vel aprova\u00e7\u00e3o, sua obra serviu de palco para in\u00fameras cr\u00edticas. Dentre eles, Carlos Nelson Coutinho, diz que essa vis\u00e3o de capitalismo desde o in\u00edcio do Brasil era atrasada. Os membros do PCB criticaram tamb\u00e9m essa ideia. Coutinho, diante desse impasse no partido, diz que o Caio Prado Jr. era atrasado, e n\u00e3o o partido que ele criticava. Tamb\u00e9m Sodr\u00e9, usa de ironia para dizer que n\u00e3o fazia sentido a ideia de capitalismo no surgimento do Brasil, sendo que o capitalismo surgiu no s\u00e9culo XVIII na Inglaterra.[12]<\/p>\n\n\n\n<p>Prado Jr. tamb\u00e9m recebeu cr\u00edticas por seu economicismo na obra Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo. Ele reduziu os aspectos sociais do Brasil para uma dimens\u00e3o econ\u00f4mica. Seus cr\u00edticos dizem que, na obra, a economia era a respons\u00e1vel por delimitar os acontecimentos na sociedade. Por\u00e9m, segundo os seus cr\u00edticos, isso era um reducionismo. Al\u00e9m desse economicismo, o autor era criticado por n\u00e3o usar fontes prim\u00e1rias.[12]<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>@CoexistenceLaw   <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Murilo Oliveira Brasil, 10 de agosto de 2023. 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