{"id":540,"date":"2022-10-23T07:03:44","date_gmt":"2022-10-23T10:03:44","guid":{"rendered":"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=540"},"modified":"2022-10-23T07:47:33","modified_gmt":"2022-10-23T10:47:33","slug":"clark-quente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=540","title":{"rendered":"Clark Quente"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Murilo Oliveira<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Brasil, 23 de outubro de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa mesma data em 1965 Lygia Clark completava 45 anos. Algumas refer\u00eancias s\u00e3o interessantes, como por exemplo textos da mesma data, quando ela faz a sua primeira grande incurs\u00e3o a Europa, com uma grande exposi\u00e7\u00e3o individual na Signals Gallery em Londres. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dessa data destaca-se ainda hoje a discuss\u00e3o a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">da magia do objeto<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;1965 \u2013 A Prop\u00f3sito da Magia do Objeto Quando um artista usa um objeto da vida cotidiana (ready-made), pensa dar a esse objeto um poder po\u00e9tico. Meu \u201cCaminhando\u201d \u00e9 muito diferente. Em seu caso, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de objeto: \u00e9 o ato que engendra a poesia. Que se passa ent\u00e3o de t\u00e3o importante com o ready-made? Nele, encontramos ainda, apesar de tudo, toda transfer\u00eancia do sujeito ao objeto, separa\u00e7\u00e3o de um e de outro. Com o ready-made, o homem ainda tem a necessidade de um suporte para revelar sua expressividade interior. Mas isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio hoje, pois a poesia se exprime diretamente no ato de fazer. Qual \u00e9 ent\u00e3o o papel do artista? Dar ao participante o objeto que n\u00e3o tem import\u00e2ncia em si mesmo e que s\u00f3 ter\u00e1 na medida em que o participante atuar. \u00c9 como um ovo que s\u00f3 revela sua subst\u00e2ncia quando o abrimos. Eu me pergunto se ap\u00f3s a experi\u00eancia do \u201cCaminhando\u201d n\u00e3o tomamos mais consci\u00eancia ainda dos gestos que fazemos &#8211; mesmo os mais corriqueiros. Pode ser que isso se torne imposs\u00edvel, porque isso exige que afastemos a priori toda significa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e imediata desses gestos. Na primeira vez que cortei o \u201cCaminhando\u201d, vivi um ritual muito significativo em si mesmo. E desejei que essa mesma a\u00e7\u00e3o fosse vivida com a maior intensidade poss\u00edvel pelos futuros participantes. \u00c9 necess\u00e1rio que ela seja puramente gratuita e que voc\u00ea n\u00e3o procure saber \u2013 enquanto estiver cortando \u2013 o que vai cortar depois e o que j\u00e1 cortou. \u00c9 necess\u00e1rio concentra\u00e7\u00e3o e uma vontade, ing\u00eanua talvez, de apreender o absoluto pelo ato de fazer o \u201cCaminhando\u201d conservando a gratuidade do gesto. O ato do \u201cCaminhando\u201d \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o dirigida ao homem, cujo trabalho, cada vez mais mecanizado, automatizado, perdeu toda a expressividade que tinha anteriormente, quando o artes\u00e3o dialogava com sua obra. Talvez o homem n\u00e3o tenha perdido essa expressividade em sua rela\u00e7\u00e3o com o trabalho \u2013 ao ponto de tornar-se totalmente estranho a ele \u2013 que para melhor redescobrir hoje seu pr\u00f3prio gesto revestido de uma nova significa\u00e7\u00e3o. Para que uma tal mudan\u00e7a ocorra na arte contempor\u00e2nea, \u00e9 necess\u00e1rio algo mais do que simplesmente a manipula\u00e7\u00e3o e a participa\u00e7\u00e3o do espectador. \u00c9 necess\u00e1rio que a obra n\u00e3o conte por ela mesma e que seja um simples trampolim para a liberdade do espectador-autor. Esse tomar\u00e1 consci\u00eancia atrav\u00e9s da proposi\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 oferecida pelo artista. N\u00e3o se trata aqui da participa\u00e7\u00e3o pela participa\u00e7\u00e3o, nem da agress\u00e3o pela agress\u00e3o, mas de que o participante d\u00ea um significado ao seu gesto e de que seu ato seja alimentado por um pensamento, nesse caso a enfatiza\u00e7\u00e3o de sua liberdade de a\u00e7\u00e3o. Quando a obra era apresentada toda feita (a \u201cobra de arte\u201d) o espectador podia apenas tentar decifr\u00e1-la \u2013 e \u00e0s vezes eram necess\u00e1rias v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Era um problema de elite. De hoje em diante, com o \u201cCaminhando\u201d, \u00e9 no instante mesmo em que faz o ato que o espectador percebe imediatamente o sentido de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma comunica\u00e7\u00e3o mais direta. N\u00e3o \u00e9 mais um problema de elite. Por outro lado, a obra antiga \u2013 o objeto fechado sobre ele mesmo \u2013 refletia uma experi\u00eancia j\u00e1 passada, vivida anteriormente pelo artista. Enquanto que agora, a import\u00e2ncia est\u00e1 no ato de fazer, no presente. \u201cA arte se torna o exerc\u00edcio espiritual da liberdade. O acontecimento da liberdade \u00e9 tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o da arte\u201d (M\u00e1rio Pedrosa). Chega-se \u00e0 obra an\u00f4nima \u2013 cuja assinatura \u00e9 apenas o ato do participante. O artista se dissolve no mundo. Seu esp\u00edrito se funde com o coletivo, permanecendo ele mesmo. Pela primeira vez, ao inv\u00e9s de interpretar um fato existente no mundo, muda-se esse mesmo mundo por uma a\u00e7\u00e3o direta. Mesmo se essa proposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 considerada como uma obra de arte, e mesmo que se permane\u00e7a c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o ao que ela implica, \u00e9 preciso faz\u00ea-la. Atrav\u00e9s dela, o homem se transforma e se aprofunda, mesmo se ele n\u00e3o o quer ou n\u00e3o o sabe. \u00c9 certo que assim o artista abdica um pouco de sua personalidade, mas pelo menos ajuda o participante a criar sua pr\u00f3pria imagem e a atingir, atrav\u00e9s dessa imagem, um novo conceito de mundo. Esse desenvolvimento \u00e9 extremamente importante, pois \u00e9 diametralmente oposto \u00e0 despersonaliza\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 uma das caracter\u00edsticas de nosso tempo. Se a perda da individualidade \u00e9 de certa maneira imposta ao homem moderno, o artista lhe oferece uma revanche e a ocasi\u00e3o de encontrar-se. Ao mesmo tempo em que se dissolve no mundo, em que se funde no coletivo, o artista perde sua singularidade, seu poder expressivo. Ele se contenta em propor que os outros sejam eles mesmos, e que atinjam o estado singular da arte sem arte.&#8221; (Portal Lygia Clark)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Onde quero destacar ainda o texto-cr\u00edtico escrito por M\u00e1rio Pedrosa da mesma data, sobre a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es entre obra de arte, artista e p\u00fablico reveladas pelo trabalho de Lygia Clark. Faz ainda, refer\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o existente entre a artista e o movimento cin\u00e9tico representado por Victor Vasarely, Agan e outros nomes com Alexander Calder. Esse \u00faltimo em exposi\u00e7\u00e3o atualmente no Instituto Casa Roberto Marinho.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/coexistencelaw.org\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/06fa4c46f9dbe288e9815b216e9e32eb.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-541\" srcset=\"https:\/\/coexistencelaw.org\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/06fa4c46f9dbe288e9815b216e9e32eb.jpg 682w, https:\/\/coexistencelaw.org\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/06fa4c46f9dbe288e9815b216e9e32eb-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A maturidade da artista a essa altura da vida, e \u00e9 tamb\u00e9m nesse sentido que busco refer\u00eancia suficiente e capaz, mostra o explendor de sua meia idade e o quanto ainda produziria.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>@CoexistenceLaw  <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Murilo Oliveira Brasil, 23 de outubro de 2022. 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