{"id":1494,"date":"2024-12-27T09:16:10","date_gmt":"2024-12-27T12:16:10","guid":{"rendered":"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=1494"},"modified":"2024-12-27T09:16:38","modified_gmt":"2024-12-27T12:16:38","slug":"roxo-a-cor-do-reveillon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=1494","title":{"rendered":"Roxo, a cor do reveillon"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Zaria Gorvett<br>Role, BBC Future<br>17 dezembro 2023<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Link original: <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cy92w17qkeeo\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cy92w17qkeeo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Original english version: <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/future\/article\/20231122-tyrian-purple-the-lost-ancient-pigment-that-was-more-valuable-than-gold\">https:\/\/www.bbc.com\/future\/article\/20231122-tyrian-purple-the-lost-ancient-pigment-that-was-more-valuable-than-gold<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O ano era 2002 no s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Qatna, um pal\u00e1cio em ru\u00ednas \u00e0 beira do deserto da S\u00edria. Ele fica \u00e0s margens de um antigo lago, seco h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O local estava abandonado h\u00e1 mais de 3 mil anos, quando uma equipe de arque\u00f3logos recebeu permiss\u00e3o para visit\u00e1-lo, em busca do t\u00famulo real.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de percorrer grandes sal\u00f5es e estreitos corredores, descendo por degraus com risco de desmoronamento, eles chegaram a um po\u00e7o profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um dos lados, havia duas est\u00e1tuas id\u00eanticas, protegendo uma porta trancada. Ali ficava o t\u00famulo do rei.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dele, havia uma imensa quantidade de maravilhas antigas. Ao todo, eram 2 mil objetos, incluindo joias e uma grande m\u00e3o de ouro. Mas havia tamb\u00e9m estranhas manchas escuras no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os arque\u00f3logos enviaram uma amostra para exame, que acabou revelando uma camada de cor p\u00farpura viva sob o p\u00f3 e a sujeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores haviam descoberto um dos produtos mais lend\u00e1rios do mundo antigo \u2013 uma subst\u00e2ncia que construiu imp\u00e9rios, destronou reis e consolidou o poder de gera\u00e7\u00f5es de governantes globais.<\/p>\n\n\n\n<p>A rainha Cle\u00f3patra (69-30 a.C.), do Egito, era t\u00e3o obcecada por ele que chegou a us\u00e1-lo nas velas do seu barco. E, em Roma, imperadores decretaram que qualquer outra pessoa, al\u00e9m deles, que fosse flagrada usando o produto seria condenada \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>A subst\u00e2ncia era a p\u00farpura t\u00edria, um pigmento extra\u00eddo de um tipo de caramujo. Era o produto mais caro da Antiguidade \u2013 valia mais do que tr\u00eas vezes o seu peso em ouro, segundo um decreto romano do ano 301 d.C.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, hoje em dia, ningu\u00e9m sabe como produzi-lo. As elaboradas receitas para a extra\u00e7\u00e3o e processamento do pigmento dos nobres da Antiguidade foram perdidas no s\u00e9culo 15.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que essa colora\u00e7\u00e3o t\u00e3o fascinante desapareceu? Ser\u00e1 que ela pode ser ressuscitada?<\/p>\n\n\n\n<p>Em um pequeno barrac\u00e3o no nordeste da Tun\u00edsia, a pouca dist\u00e2ncia do que foi a cidade fen\u00edcia de Cartago, um homem passou a maior parte dos \u00faltimos 16 anos esmagando caramujos marinhos. Ele tenta pacientemente transformar as entranhas dos animais em algo que relembre a p\u00farpura t\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>As camadas mais privilegiadas da sociedade exibiram a p\u00farpura t\u00edria por mil\u00eanios, como um s\u00edmbolo de for\u00e7a, soberania e riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>Escritores antigos descrevem com precis\u00e3o o tom espec\u00edfico de roxo que originou seu nome: p\u00farpura avermelhada escura, como de sangue coagulado, tingido com preto.<\/p>\n\n\n\n<p>Pl\u00ednio, o Velho (23-79 d.C.), descreveu a apar\u00eancia do pigmento como &#8220;brilhante quando observado contra a luz&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Com sua intensa e \u00fanica colora\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia ao desbotamento, a p\u00farpura t\u00edria era adorada por civiliza\u00e7\u00f5es antigas em todo o sul da Europa, norte da \u00c1frica e oeste da \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>O pigmento foi fundamental para o sucesso dos fen\u00edcios, que ficaram conhecidos como as &#8220;pessoas roxas&#8221;. O pr\u00f3prio nome do pigmento vem da cidade-Estado fen\u00edcia de Tiro (hoje, pertencente ao L\u00edbano).<\/p>\n\n\n\n<p>O tom de roxo podia ser encontrado em tudo, desde mantos at\u00e9 velas de barcos, pinturas, m\u00f3veis, cimento, pinturas nas paredes, joias e at\u00e9 em sud\u00e1rios f\u00fanebres.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano 40 d.C., o rei Ptolomeu da Maurit\u00e2nia foi assassinado de surpresa em Roma, por ordem do imperador.<\/p>\n\n\n\n<p>O motivo: apesar de ser amigo dos romanos, o infeliz soberano havia causado uma grave ofensa ao visitar um anfiteatro para assistir a um combate entre gladiadores\u2026 vestindo um manto roxo.<\/p>\n\n\n\n<p>A lux\u00faria ciumenta e insaci\u00e1vel inspirada por aquela cor, \u00e0s vezes, era comparada com uma esp\u00e9cie de loucura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mist\u00e9rio viscoso<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, o pigmento mais celebrado que o mundo j\u00e1 conheceu n\u00e3o come\u00e7ou sua vida como uma bela gema ultramarina, como seu contempor\u00e2neo l\u00e1pis-laz\u00fali. Nem como um vibrante emaranhado de ra\u00edzes rosa-coral, como a granza produtora de pigmento vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a p\u00farpura t\u00edria come\u00e7ou como um fluido transparente produzido pela fam\u00edlia de caranguejos marinhos chamada Murex. Mais especificamente, ela era viscosa.<br>A p\u00farpura t\u00edria j\u00e1 foi encontrada em pinturas datadas da Idade do Bronze.<\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00farpura t\u00edria era produzida com as secre\u00e7\u00f5es de tr\u00eas esp\u00e9cies de caranguejos marinhos. Cada uma delas gerava uma cor diferente: Hexaplex trunculus (roxo azulado), Bolinus brandaris (roxo avermelhado) e Stramonita haemastoma (vermelho).<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que os caramujos eram ca\u00e7ados, seja manualmente no litoral rochoso ou com armadilhas usando outros caramujos como isca (os caramujos Murex s\u00e3o predadores), chegava a hora de colher a gosma. Para isso, em alguns lugares, a gl\u00e2ndula mucosa era fatiada com uma faca espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Um escritor romano descreveu que a subst\u00e2ncia interna do caramujo gotejava das suas feridas, &#8220;fluindo como l\u00e1grimas&#8221;, at\u00e9 ser recolhida em almofarizes para ser mo\u00edda. Alternativamente, esp\u00e9cies menores podiam ser mo\u00eddas inteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as nossas certezas terminam por aqui. Os relatos de como a gosma incolor do caramujo era transformada no lend\u00e1rio pigmento s\u00e3o vagos, contradit\u00f3rios e, \u00e0s vezes, claramente errados.<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles (384-322 a.C.) afirmava que as gl\u00e2ndulas mucosas vinham da garganta de um &#8220;peixe roxo&#8221;. E, para complicar ainda mais, a ind\u00fastria de pigmentos era muito sigilosa \u2013 cada produtor tinha sua pr\u00f3pria receita e essas f\u00f3rmulas complexas, com m\u00faltiplas etapas, eram guardadas a sete chaves.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o descreviam os detalhes importantes por escrito&#8221;, segundo Maria Melo, professora de ci\u00eancia da conserva\u00e7\u00e3o da Universidade NOVA de Lisboa, em Portugal.<br>Os caramujos Murex podem tamb\u00e9m ter sido a fonte hist\u00f3rica do corante chamado &#8216;tekhelet&#8217; \u2013 a cor sagrada do juda\u00edsmo, mencionada na B\u00edblia Hebraica<\/p>\n\n\n\n<p>O registro mais detalhado do processo de produ\u00e7\u00e3o da p\u00farpura t\u00edria vem mesmo de Pl\u00ednio, o Velho, no s\u00e9culo 1\u00b0 d.C.<\/p>\n\n\n\n<p>Era mais ou menos assim: depois de isoladas, as gl\u00e2ndulas mucosas eram salgadas e deixadas para fermentar por tr\u00eas dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, elas eram cozidas em recipientes de estanho ou, talvez, de chumbo com calor &#8220;moderado&#8221;. O cozimento prosseguia at\u00e9 que toda a mistura ocupasse uma fra\u00e7\u00e3o do seu volume original.<\/p>\n\n\n\n<p>No d\u00e9cimo dia, um peda\u00e7o de tecido era mergulhado no corante para testar. Se fosse tingido com a tonalidade desejada, estava pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando que cada caramujo cont\u00e9m apenas uma quantidade min\u00fascula de muco, poderiam ser necess\u00e1rios 10 mil animais para produzir um \u00fanico grama de pigmento.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem relatos de pilhas contendo bilh\u00f5es de cascas de caramujos marinhos descartadas nas regi\u00f5es onde o pigmento era fabricado. De fato, a produ\u00e7\u00e3o de p\u00farpura t\u00edria j\u00e1 foi descrita como a primeira ind\u00fastria qu\u00edmica \u2013 n\u00e3o s\u00f3 devido \u00e0 escala de sua opera\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 sua natureza agressiva.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Realmente, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil obter a colora\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo o professor de qu\u00edmica da conserva\u00e7\u00e3o Ioannis Karapanagiotis, da Universidade Arist\u00f3teles de Tessal\u00f4nica, na Gr\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele explica que a p\u00farpura t\u00edria \u00e9 completamente diferente dos outros pigmentos, cuja mat\u00e9ria-prima, como folhas, j\u00e1 cont\u00e9m o pigmento. Neste caso, o muco do caramujo marinho cont\u00e9m subst\u00e2ncias que podem ser transformadas em pigmento, mas apenas nas condi\u00e7\u00f5es corretas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 bastante surpreendente&#8221;, afirma o professor. E, ainda assim, muitos detalhes fundamentais do processo foram esquecidos h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Forte cheiro de roxo<\/p>\n\n\n\n<p>Na Antiguidade, a p\u00farpura t\u00edria n\u00e3o era conhecida apenas pela sua colora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As tinturarias eram formadas por leitos onde frutos do mar apodreciam com a adi\u00e7\u00e3o de urina \u2013 frequentemente empregada para auxiliar na fixa\u00e7\u00e3o dos pigmentos \u2013 e seu conhecido odor picante.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cheiro p\u00fatrido podia ser sentido em bairros inteiros e as cidades onde o pigmento era fabricado eram consideradas locais desagrad\u00e1veis para se viver.<\/p>\n\n\n\n<p>O mau cheiro ficava profundamente impregnado nas fibras dos tecidos tingidos, permanecendo por muito tempo ap\u00f3s a sua compra. E, quanto \u00e0s pessoas ricas que tinham acesso exclusivo a este tom de roxo, talvez fosse aconselh\u00e1vel mant\u00ea-las contra o vento.<br>p\u00farpura t\u00edria<\/p>\n\n\n\n<p>Decl\u00ednio s\u00fabito<\/p>\n\n\n\n<p>Nas primeiras horas do dia 29 de maio de 1453, a cidade bizantina de Constantinopla foi tomada pelos otomanos. Era o fim do Imp\u00e9rio Romano do Oriente \u2013 e da p\u00farpura t\u00edria com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, as tinturarias da cidade eram o centro da ind\u00fastria. A cor havia ficado profundamente ligada ao catolicismo. Ela era usada nas roupas dos cardeais e para tingir as p\u00e1ginas de manuscritos religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a ind\u00fastria j\u00e1 sofria preju\u00edzos, devido a uma sucess\u00e3o de impostos excessivos, que fizeram com que a Igreja perdesse completamente o controle sobre a produ\u00e7\u00e3o do pigmento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o papa decidiu rapidamente que o novo s\u00edmbolo do poder crist\u00e3o seria a cor vermelha, que pode ser produzida de forma f\u00e1cil e barata, a partir de cochonilhas mo\u00eddas. Mas existe outro fator que tamb\u00e9m pode ter colaborado para a queda da p\u00farpura t\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2003, cientistas encontraram uma pilha de cascas de caramujos marinhos no local do antigo porto de Andr\u00edaca (hoje, sul da Turquia). Ao todo, eles estimaram que aquela pilha de res\u00edduos, datada do s\u00e9culo 6\u00b0 d.C., continha cerca de 300 metros c\u00fabicos de restos de caramujos, o que corresponde a at\u00e9 60 milh\u00f5es de indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>O curioso \u00e9 que o fundo da pilha \u2013 que cont\u00e9m os primeiros caramujos descartados \u2013 inclui esp\u00e9cimes maiores e mais velhos, enquanto os descartados mais recentemente s\u00e3o significativamente menores e mais jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que os caramujos marinhos teriam sido superexplorados e, em certo momento, n\u00e3o havia mais caramujos adultos. E este fen\u00f4meno pode ter levado ao t\u00e9rmino da produ\u00e7\u00e3o do pigmento na regi\u00e3o, como sugerem os pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, poucos anos depois dessa descoberta, outro achado traria de volta as esperan\u00e7as de fazer reviver o antigo pigmento.<br>No M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Central, povos ind\u00edgenas empregam um m\u00e9todo muito diferente de tingimento com Murex: eles esfregam os caramujos vivos diretamente sobre o tecido<\/p>\n\n\n\n<p>O renascimento<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2007, Mohammed Ghassen Nouira, que trabalha como gerente consultor, fazia sua caminhada habitual na hora do almo\u00e7o, em uma praia nas imedia\u00e7\u00f5es da capital da Tun\u00edsia, a cidade de T\u00fanis.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Havia ocorrido uma tempestade horr\u00edvel na noite anterior, de forma que muitas criaturas estava mortas na areia, como \u00e1guas-vivas, algas marinhas, pequenos caranguejos e moluscos&#8221;, relembra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele seguiu caminhando pela praia, at\u00e9 que observou uma mancha colorida \u2013 um l\u00edquido roxo avermelhado intenso vazava de um caranguejo marinho rachado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nouira se lembrou imediatamente de uma hist\u00f3ria que havia aprendido na escola: a lenda da p\u00farpura t\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele correu at\u00e9 o porto local, onde encontrou muitos outros caramujos, exatamente como aquele que estava na praia. Seus pequenos corpos em espiral s\u00e3o cobertos de espinhos e costumam ficar presos nas redes dos pescadores.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles os odeiam&#8221;, ele conta. Um homem estava retirando os caramujos da sua rede e colocando em uma velha lata de tomate, que Nouira levou para estudar no seu apartamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, o experimento de Nouira foi extremamente frustrante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele quebrou os caramujos naquela noite e procurou as entranhas de cor p\u00farpura viva que ele havia observado na praia. Mas n\u00e3o havia nada, a n\u00e3o ser carne branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele colocou tudo em um saco de lixo e foi para a cama. Mas, no dia seguinte, o conte\u00fado do saco havia passado por uma transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 aquele momento, eu n\u00e3o fazia ideia de que a cor p\u00farpura era inicialmente transparente, como \u00e1gua&#8221;, ele conta.<br>homem manuseando pano com tinta roxa<\/p>\n\n\n\n<p>Os cientistas agora sabem que, para ativar as subst\u00e2ncias internas dos caramujos Murex em estado incolor, elas precisam ser expostas \u00e0 luz vis\u00edvel. Inicialmente, suas secre\u00e7\u00f5es ficar\u00e3o amarelas, depois verdes, turquesa, azuis e, por fim, ir\u00e3o assumir um tom de roxo, dependendo da esp\u00e9cie do caranguejo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se voc\u00ea realizar este processo em um dia de sol, leva pouco menos de cinco minutos para que ocorra a transforma\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo Karapanagiotis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta n\u00e3o \u00e9 uma receita de p\u00farpura t\u00edria instant\u00e2nea. Na verdade, a tonalidade \u00e9 composta de muitas mol\u00e9culas de pigmento diferentes trabalhando em conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Melo explica que existe o \u00edndigo, que \u00e9 azul, \u00edndigo &#8220;bromatado&#8221;, que \u00e9 p\u00farpura, e indirubina, que \u00e9 vermelho. &#8220;Dependendo do tratamento do seu extrato e do tingimento, voc\u00ea pode ter cores muito diferentes&#8221;, segundo ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ao atingir a colora\u00e7\u00e3o desejada, ainda \u00e9 preciso mais processamento para transformar os pigmentos em corante, como a sua convers\u00e3o em formas que sejam aderidas aos tecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Nouira, este foi o come\u00e7o de uma obsess\u00e3o que durou 16 anos, at\u00e9 que ele descobrisse o m\u00e9todo perdido de produ\u00e7\u00e3o da p\u00farpura t\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros pesquisadores j\u00e1 haviam investigado as secre\u00e7\u00f5es dos caramujos marinhos \u2013 incluindo um cientista que processou 12 mil indiv\u00edduos para obter 1,4 g de pigmento puro em p\u00f3, empregando t\u00e9cnicas industriais. Mas Nouira queria produzir do modo antigo e redescobrir a tonalidade aut\u00eantica, que foi reverenciada por mil\u00eanios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele havia levado aqueles primeiros caramujos marinhos para o seu apartamento em 2007, apenas uma semana depois da sua lua de mel<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minha esposa ficou horrorizada com o cheiro; ela quase me expulsou de casa\u2026 mas eu precisava continuar&#8221;, ele conta.<br>pigmento roxo<\/p>\n\n\n\n<p>Nouira levou anos para produzir seu primeiro corante em p\u00f3. Quando conseguiu, a cor era \u00edndigo claro, nada parecida com a p\u00farpura t\u00edria \u2013 e o corante era extremamente poeirento.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi s\u00f3 depois de anos de tentativas e erros que Nouira gradualmente descobriu os truques que ele suspeita terem sido usados na Antiguidade, como misturar secre\u00e7\u00f5es de todas as tr\u00eas esp\u00e9cies de caramujos mencionadas no relato de Pl\u00ednio, ajustar a acidez da mistura, alternar a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do sol com o escuro durante a prepara\u00e7\u00e3o e cozinhar as misturas por diferentes per\u00edodos de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como refer\u00eancia, Nouira usou principalmente mosaicos bizantinos que mostram o imperador Justiniano 1\u00ba (482-565) e sua esposa Teodora (c.500-548). Posteriormente, ele tamb\u00e9m comparou seus resultados com fragmentos remanescentes de tecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, ele obteve pigmentos puros e corantes que ele acredita estarem excepcionalmente pr\u00f3ximos da verdadeira p\u00farpura t\u00edria, atendendo \u00e0s antigas expectativas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;[A cor] \u00e9 muito viva, muito din\u00e2mica&#8221;, afirma ele. &#8220;Dependendo da ilumina\u00e7\u00e3o, ela se altera e brilha\u2026 ela continua brilhando e brincando com seus olhos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Aplica\u00e7\u00e3o moderna<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, os cientistas v\u00eam pesquisando um poss\u00edvel novo uso para a p\u00farpura t\u00edria \u2013 ou, pelo menos, para uma das suas mol\u00e9culas mais importantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua forma pura, 6,6&#8242;-dibromo\u00edndigo \u00e9 um p\u00f3 roxo escuro que, por acaso, serve de excelente semicondutor \u2013 a base da eletr\u00f4nica moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ser um material org\u00e2nico, a mol\u00e9cula \u00e9 biodegrad\u00e1vel e menos nociva para o corpo humano do que o sil\u00edcio. Por isso, al\u00e9m de tornar os circuitos eletr\u00f4nicos mais ecol\u00f3gicos, talvez ela possa ser usada em tecnologias vest\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o melhor de tudo \u00e9 que ela pode ser produzida em laborat\u00f3rio, sem o uso de caramujos marinhos.<br>pigmento roxo<\/p>\n\n\n\n<p>Novas amea\u00e7as<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de d\u00e9cadas de mal cheirosos experimentos no seu barrac\u00e3o, Nouira foi convidado a expor seus pigmentos e produtos tingidos em exibi\u00e7\u00f5es em todo o mundo, como no Museu Brit\u00e2nico de Londres e no Museu de Belas Artes de Boston, nos Estados Unidos. E ele acabou tamb\u00e9m se tornando especialista culin\u00e1rio em receitas com caramujos marinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nouira recomenda macarr\u00e3o tunisiano apimentado com Murex ou Murex frito. &#8220;\u00c9 crocante, \u00e9 delicioso, \u00e9 incr\u00edvel&#8221;, afirma ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar de todos os esfor\u00e7os, a p\u00farpura t\u00edria est\u00e1 novamente amea\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o, agora, n\u00e3o s\u00e3o as invas\u00f5es, nem os segredos sobre a sua produ\u00e7\u00e3o \u2013 embora, quando o assunto s\u00e3o os detalhes espec\u00edficos dos seus m\u00e9todos, Nouira seja t\u00e3o dissimulado quanto seus antigos colegas.<\/p>\n\n\n\n<p>A amea\u00e7a \u00e9 de extin\u00e7\u00e3o. Os caramujos marinhos sofrem com uma s\u00e9rie de influ\u00eancias humanas, como a polui\u00e7\u00e3o e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A esp\u00e9cie Stramonita haemastoma, que fornece a tonalidade avermelhada \u00e0 colora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 desapareceu do leste do Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, mesmo que a p\u00farpura t\u00edria tenha finalmente renascido, o certo \u00e9 que ela pode ser facilmente perdida mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Leia a vers\u00e3o original desta reportagem (em ingl\u00eas) no site BBC Future.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"New Year\u2019s Day\" width=\"696\" height=\"522\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KkvTYrFIxNM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>@CoexistenceLaw  <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zaria GorvettRole, BBC Future17 dezembro 2023 Link original: https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cy92w17qkeeo Original english version: https:\/\/www.bbc.com\/future\/article\/20231122-tyrian-purple-the-lost-ancient-pigment-that-was-more-valuable-than-gold O ano era 2002 no s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Qatna, um pal\u00e1cio em ru\u00ednas \u00e0 beira do deserto da S\u00edria. Ele fica \u00e0s margens de um antigo lago, seco h\u00e1 muito tempo. O local estava abandonado h\u00e1 mais de 3 mil anos, quando<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/coexistencelaw.org\/?p=1494\" class=\"more-link\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[449,451,450,452],"class_list":["post-1494","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-preaching","tag-amenidades","tag-purpura-tiria","tag-reveillon","tag-taylor-swift"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1494"}],"collection":[{"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1494"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1494\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1495,"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1494\/revisions\/1495"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1494"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1494"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/coexistencelaw.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1494"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}