Murilo Oliveira
Brasil, 21 de abril de 2023.
É preciso pedir um pouco de calma inclusive para o Governo do Brasil nesse momento, sabemos de um novo conflagrar a situação política em diversos lugares do mundo, em muitos casos chegando ao conflito armado. Não resta dúvida que o Brasil já pode se considerar detentor de uma das diplomacias com mais extensa tradição de paz, que teve por exemplo em Celso Amorim como Chanceler no passado recente, um momento de protagonismo impar.
De sobremodo, o que acho que cabe pedir é que por exemplo, o mesmo Celso Amorim de quem sou franco admirador há muitos anos, como de toda tradição do Itamaraty, que tenha calma nessa hora. Os BRICS não são e não serão o Pacto de Varsóvia. Muito pelo contrário, sabemos disso, é mais uma de nossas belas proposições entre nações amigas. E compreendemos isso a perfeição com a visita do Presidente Lula a China, mas ficamos com a sensação de alguma precipitação com a viagem desse que é talvez o mais brilhante quadro do Itamaraty que conheço, ao Kremlin ao mesmo tempo das conversações com China.
Hoje os Estados Unidos da América decidiram aportar 2,5 bilhões de Reais no Fundo Amazônia, e esperamos que levem a proposta a cabo. Observamos por exemplo em todo o processo eleitoral, até os primeiros dias do novo Governo do Brasil, uma postura do Presidente Biden foi de garantismo da normalidade democrática no Brasil. Reforça agora sua aposta, e procura passar uma imagem positiva do Brasil inclusive para seu público interno, onde por exemplo se manifestou até que forma bastante clara seu Partido Democrata em desacordo com a presença do Presidente Bolsonaro nos Estados Unidos da América após a eleição no Brasil.
Para além disso, tentamos nesse momento recobrar nossa auto-estima, em todas as frentes, e nesse momento o que se pede é que seja muito mais do que antes, quando eu pessoalmente era um ator político bastante ativo nos bancos escolares, um governo de conciliação. Naquela época ouvia eu esse tipo de comentário internamente as instituições partidárias do primeiro Governo Lula, uma afirmativa constante de uma certa adversidade e refluxo, que faziam daquele primeiro Governo Lula um governo de conciliação. Na ocasião me parecia exagerado e frustrante de muitos ímpetos da militância estudantil, hoje acredito que seja mais verdade do que nunca. Vivemos claramente um cenário mundial e domestico extremamente conflagrado de diversas formas, sobrepassando limites do razoável como auto-determinação dos povos e sua soberania em parte importante da Europa.
Internamente não temos indícios menos preocupantes de um fratricídio, é o que nos aparenta sempre em vias de acontecer em qualquer discussão política no país que nos apavora, e nos exige a manutenção de apostas conservadoras e centradas, inclusive na manutenção de nossa auto-estima em todas as frentes. Quando o que a cultura politica oferecida a nossos cidadão desde os bancos escolares do elementar reza que historicamente houve por exemplo no Governo de Getúlio Vargas a manutenção talvez além do razoável de uma “politica pendular”. Eu nos dias de hoje não sou tão certo como os primeiros livros de história politica ofertados nas escolas primárias brasileiras desde então, que essa “política pendular” tenha evitado que tenhamos até hoje focos de dor e desencontro em aliados da politica praticada na época, especialmente aqueles que estritamente aliados ao Governo de Vargas se imbuíram da hipótese de se alinhar de um lado mais que mais tarde se mostrou equivocado para todos.
De tudo, o que hoje me parece lógico, é que a bela tradição do Itamaraty, e não desse ou daquele governo, e as vezes gostaria mais de ter Celso Amorim de volta a liderança da Chancelaria e interagindo com suas tradições, a bela tradição de paz do Itamaraty seja sempre a cultura dominante no país. E assim emita sinais claros quanto a tudo, quanto a distancia na verdade que temos e podemos ter, capaz, e certamente não imediatamente e sem suporte internamente. Tendo em mente que temos que lidar com processos dolorosos quanto ao que houve de desordem em nossas tropas, que ressalte-se teve em sua imensa parte, comportamento de paz exemplar, bem como se sabe, de agir como mediadores da paz no mundo. Como de resto nunca me furto em enaltecer o papel do Brasil na MINUSTAH em diversas partes do mundo. Certamente as mais capazes tropas de paz, sensíveis, com comandos femininos mais que capazes como sempre afirmo. Não é desprezível o sofrimento de mulheres e crianças nessas circunstâncias de conflito.
Não me canso de acreditar, e acredito que nem mesmo esse governo, que precisamos de toda ajuda possível. As vezes por exemplo, já disse isso aqui no Blog a respeito da França, acredito que é uma boa hora para apostar mais no Brasil, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia também não deve ser deixado para trás. Quer dizer, o que nos é exigido, como o Vice-Presidente se notabilizou em dizer na cargo de Governador que ocupou por muitos anos, o que precisamos é de trabalho e discrição. Sem nos notabilizar pela pressa que aparente uma ideologia de alinhamento automático, como tão pouco desassistir todos internamente no debate, mas ganhar em acumulo de cultura de paz e assistência mútua entre todos internamente, no sentido de recuperar nossa auto-estima. Temos preocupações, ao mesmo tempo que o mundo nos pede atenção, nem sempre temos a atenção do mundo que precisamos, mas é fundamental insistir que as oportunidades que nos são oferecidas com transparência, para bem da população brasileira, em todas as frentes, sejam manifestas como as relativas ao meio ambiente e levadas a cabo por todos. Bem como aquelas que não podemos abdicar de defender no comércio global.
Em larga medida, pode-se dizer que o Brasil até aqui ainda respeita suas tradições, as de paz mais antigas e as democráticas mais recentes, e isso que vem tranquilizando a todos. Algo importante nesse momento, tranquilizar a todos. Inclusive internamente, mas não só. E aqui ressalto mais uma vez, para bem ou para mal, nem sempre acho completamente acertado que se vá além do razoável de tempo que não nos manifestemos antes pela auto-determinação dos povos, e sua soberania e integridade territorial, conseguimos e fomos ensinados, a não tomar a atitude de nos alinhar precipitadamente, mas antes salvar nossos interesses internos de forma a transpor períodos difíceis como esse com melhor conforto de nossa população. Ao mesmo tempo, a cultura de paz, especialmente do período democrático, vem se mostrando tão capaz do Itamaraty até as Forças Armadas, que não podemos deixar de prestigiar ambos, onde não por acaso, Itamaraty e Forças Armadas podem e devem se assistir, como fizeram no período ainda curto de nossa democracia de forma exemplar por todo o mundo em situações de conflito.
@CoexistenceLaw
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