Murilo Oliveira
Brasil, 31 de março de 2023.
Talvez a frase de Khalil Gibran me inspire uma reflexão difícil, mas em principio o que eu queria propor é que nem sempre temos na constância dos fatos a regularidade dos afetos. Vamos ver se consigo explicar isso. O antropólogo que coloca duas gaiolas de vidro com dois primatas um ao lado do outro constata que há uma constância no fato de que o primata, seja ele Chipanzé ou Bonobo, quando vê seu par ganhar uma uva e ele um pepino, invariavelmente se insurge. Quando ambos ganham uva ou pepino, tudo bem. É uma espécie de fato que pode-se chamar de constante.
Resumidamente, como já disse aqui, esses dois primatas são igualmente próximos ao ser humano, o Chipanzé de forma superficial como posso explicar o pouco que apreendi a respeito, é uma sociedade masculina, territorialista, o Bonobo, uma sociedade feminina não territorialista. Haveria um vestígio de luz aos dias de hoje nessas duas sociedades, é o que se alega em estudos recentes. Mas aqui vou a constatação como me parece, me esforçando no sentido da proposição como sempre tentei pensar e agir. Pragmático porém pro-ativo em quase todo o tempo de estudante e ativista politico ativo.
Qual é a constatação? A mecânica das relações Bonobo acontecem com uma certa constância e regularidade, que nos leva a supor uma sociedade aberta e flagrantemente mais afetiva. Quando isso diz mais de quem vê, do que quem é visto. O humano vendo as divergências aparentarem entre si uma solvência simples em relações sexuais entre todos num espaço não tão bem delimitado, crê para si que está diante de uma relação mais profundamente afetiva, e essa suposição por hora é meramente humana. Não é possível extrair se trata-se de uma expressão da violência reinante ou não. O que temos de fato sobre isso, até onde eu acompanhei a exposição, é o dado dos dois aquários, onde não se conforta um com um pepino onde aquele ao lado ganhou uma uva.
E aqui vem a fronteira curiosa de porquê vou a Khalil Gibran, e vou porque para esse autor o desejo é paradigmático. O desejo nos impõe uma série de situações onde queremos bater no vidro do aquário do outro e dizer: ei, isso é injusto! Eu também quero uma uva! O desejo está paradoxalmente oposto a indiferença em que se vê determinadas relações acontecerem numa frequência e constância tal de qualquer mínima divergência dos circunstantes, que é uma expressão de profunda violência. Paradoxal que são os dois sentimentos, todo mundo tem um pepino por assim dizer.
E daí que eu estou a essa altura de avaliar isso, correndo atrás do rabo com um conceito que se não o territorial do Chipanzé, é talvez o dado gregário do ser humano. Quero assumir que eu não estou combatendo um dado, mas tentando imaginar que segundo uma conceituação infantil minha própria, bastante antiga eu diria, o amor é uma espécie de proposição, não exatamente ou apenas uma matemática em si, que as vezes soam insolúveis, mas no sentido de que é de se propor diariamente a uma determinada compreensão e convivência, um auxílio mutuo que o seja, edifica-se a hipótese de Gibran me parece fazer “de gato e sapato”. Ninguém é “gato e sapato” até que esteja sujeito a uma hipótese externa a si, que lhe exija um tanto de se propor demasiado. Um fator gregário eu diria.
A suposição humana vai dizer puramente da forma que ele pretende ver por exemplo uma relação sexual até aqui, estendendo essa visão até o ponto que um primata que no primeiro sinal de violência latente se atraca sexualmente com o outro, sem considerar dados de uma humanidade ainda mais sutil. Me lembro de ver isso em contos publicados em jornal de Machado de Assis. Dados de um trato cordial. O termo talvez seja esse, trato cordial. Em um universo do “você me paga”, como aparenta ser esse universo Bonobo, onde da violência vem a interpelação sexual, parece que todos estão totalmente “pagos” por assim dizer. Mas a violência de fundo não inconsiste.
No que começo a ensaiar a partir desse ponto, um conceito simples, que é o conceito de comunidade. O conceito simples de comunidade. Que não o combate ao dado, de por exemplo que podemos e em alguma circunstancia até tendemos, a uma sociedade talvez com menos fronteiras, mas a saúde que se ensaia em toda parte é ao mesmo tempo diversa da imensa logística de se produzir de forma otimizada de tudo por toda a Terra, mas ter ali no raio de 5 km de sua casa uma excelência de saúde no acesso a serviços e relações humanas, que não contradiz, mas é paradoxal em certa medida com a percepção de alcance que as comunicações por exemplo passam a ter, bem como a possibilidade de ser uma cidadão do mundo. E saúde em serviços e relações humanas, é um parâmetro bastante concreto onde todos gostam de uva!
Uva e pepino em relações humanas, em parâmetros de desejo e indiferença, difere entre uma coisa e outra uma imensidão. Uva é metade da vida, pepino metade da morte! Uva é desejo, pepino é o que tem. Os tais modos de Machado de Assis, de algum lugar que certo dia parei em Machado de Assis. Que as vezes me remete a um comercio qualquer que hoje existe em sua casa no Cosme Velho, me remete a todos os comércios que frequento, teria sempre eu em todos os casos algum desejo de consumo, mas a desejar alguém dali, me é longo e demorado trato cordial. Para mim é diferente chegar na necessidade de pedir a chave do banheiro e observar com calma gestos e maneiras. Mistérios, segredos, recobertos, discretos, contidos, fantasiosos! Esse é o dado, a uva vista através do vidro ali ao lado é um dado fantasioso do desejo escruciante.
Concretamente, as pessoas ainda não pararam de usar roupas fora do Brasil. E claramente meu desejo de consumo quando vou a um comercio comprar algo se confunde muito pouco com meus desejo pelo próximo de forma mais profunda. Eu sei, não sou unanime nisso nem entre meus amigos mais próximos, mas há de se fazer diferença, a despeito de como disse, no Brasil já não se costuma muita cerimônia. Para o que quero dizer que meio a meio, existe um limite tênue entre desejo e indiferença. Desejo é uma metade da vida alimentada por sutilezas pouco a cada dia, indiferença é metade da morte que não precisa de maiores delongas.
@CoexistenceLaw
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