Murilo Oliveira
Brasil, 23 de outubro de 2022.
Nessa mesma data em 1965 Lygia Clark completava 45 anos. Algumas referências são interessantes, como por exemplo textos da mesma data, quando ela faz a sua primeira grande incursão a Europa, com uma grande exposição individual na Signals Gallery em Londres.
Dessa data destaca-se ainda hoje a discussão a seguir:
da magia do objeto
“1965 – A Propósito da Magia do Objeto Quando um artista usa um objeto da vida cotidiana (ready-made), pensa dar a esse objeto um poder poético. Meu “Caminhando” é muito diferente. Em seu caso, não há necessidade de objeto: é o ato que engendra a poesia. Que se passa então de tão importante com o ready-made? Nele, encontramos ainda, apesar de tudo, toda transferência do sujeito ao objeto, separação de um e de outro. Com o ready-made, o homem ainda tem a necessidade de um suporte para revelar sua expressividade interior. Mas isso já não é mais necessário hoje, pois a poesia se exprime diretamente no ato de fazer. Qual é então o papel do artista? Dar ao participante o objeto que não tem importância em si mesmo e que só terá na medida em que o participante atuar. É como um ovo que só revela sua substância quando o abrimos. Eu me pergunto se após a experiência do “Caminhando” não tomamos mais consciência ainda dos gestos que fazemos – mesmo os mais corriqueiros. Pode ser que isso se torne impossível, porque isso exige que afastemos a priori toda significação prática e imediata desses gestos. Na primeira vez que cortei o “Caminhando”, vivi um ritual muito significativo em si mesmo. E desejei que essa mesma ação fosse vivida com a maior intensidade possível pelos futuros participantes. É necessário que ela seja puramente gratuita e que você não procure saber – enquanto estiver cortando – o que vai cortar depois e o que já cortou. É necessário concentração e uma vontade, ingênua talvez, de apreender o absoluto pelo ato de fazer o “Caminhando” conservando a gratuidade do gesto. O ato do “Caminhando” é uma proposição dirigida ao homem, cujo trabalho, cada vez mais mecanizado, automatizado, perdeu toda a expressividade que tinha anteriormente, quando o artesão dialogava com sua obra. Talvez o homem não tenha perdido essa expressividade em sua relação com o trabalho – ao ponto de tornar-se totalmente estranho a ele – que para melhor redescobrir hoje seu próprio gesto revestido de uma nova significação. Para que uma tal mudança ocorra na arte contemporânea, é necessário algo mais do que simplesmente a manipulação e a participação do espectador. É necessário que a obra não conte por ela mesma e que seja um simples trampolim para a liberdade do espectador-autor. Esse tomará consciência através da proposição que lhe é oferecida pelo artista. Não se trata aqui da participação pela participação, nem da agressão pela agressão, mas de que o participante dê um significado ao seu gesto e de que seu ato seja alimentado por um pensamento, nesse caso a enfatização de sua liberdade de ação. Quando a obra era apresentada toda feita (a “obra de arte”) o espectador podia apenas tentar decifrá-la – e às vezes eram necessárias várias gerações. Era um problema de elite. De hoje em diante, com o “Caminhando”, é no instante mesmo em que faz o ato que o espectador percebe imediatamente o sentido de sua própria ação. É uma comunicação mais direta. Não é mais um problema de elite. Por outro lado, a obra antiga – o objeto fechado sobre ele mesmo – refletia uma experiência já passada, vivida anteriormente pelo artista. Enquanto que agora, a importância está no ato de fazer, no presente. “A arte se torna o exercício espiritual da liberdade. O acontecimento da liberdade é também a realização da arte” (Mário Pedrosa). Chega-se à obra anônima – cuja assinatura é apenas o ato do participante. O artista se dissolve no mundo. Seu espírito se funde com o coletivo, permanecendo ele mesmo. Pela primeira vez, ao invés de interpretar um fato existente no mundo, muda-se esse mesmo mundo por uma ação direta. Mesmo se essa proposição não é considerada como uma obra de arte, e mesmo que se permaneça cético em relação ao que ela implica, é preciso fazê-la. Através dela, o homem se transforma e se aprofunda, mesmo se ele não o quer ou não o sabe. É certo que assim o artista abdica um pouco de sua personalidade, mas pelo menos ajuda o participante a criar sua própria imagem e a atingir, através dessa imagem, um novo conceito de mundo. Esse desenvolvimento é extremamente importante, pois é diametralmente oposto à despersonalização – que é uma das características de nosso tempo. Se a perda da individualidade é de certa maneira imposta ao homem moderno, o artista lhe oferece uma revanche e a ocasião de encontrar-se. Ao mesmo tempo em que se dissolve no mundo, em que se funde no coletivo, o artista perde sua singularidade, seu poder expressivo. Ele se contenta em propor que os outros sejam eles mesmos, e que atinjam o estado singular da arte sem arte.” (Portal Lygia Clark)
Onde quero destacar ainda o texto-crítico escrito por Mário Pedrosa da mesma data, sobre a mudança das relações entre obra de arte, artista e público reveladas pelo trabalho de Lygia Clark. Faz ainda, referência à relação existente entre a artista e o movimento cinético representado por Victor Vasarely, Agan e outros nomes com Alexander Calder. Esse último em exposição atualmente no Instituto Casa Roberto Marinho.

A maturidade da artista a essa altura da vida, e é também nesse sentido que busco referência suficiente e capaz, mostra o explendor de sua meia idade e o quanto ainda produziria.
@CoexistenceLaw
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